
Paulo Miranda
CRO Viaflow
A Inteligência Artificial está consolidada como principal prioridade estratégica para as empresas brasileiras em 2026. Após aparecer como “tendência” nas edições de 2024 e 2025, o uso de IA saltou para o topo do ranking de prioridades na Pesquisa Panorama 2026, realizada pela Amcham Brasil em parceria com a Humanizadas. O estudo, que ouviu 629 executivos — dos quais 60% ocupam posições de alta liderança (C-Level, conselheiros e diretores) e 72% representam empresas de médio e grande porte —, oferece um retrato consistente, e atual, do cenário empresarial brasileiro. As organizações participantes empregam, juntas, cerca de 592 mil colaboradores, distribuídas majoritariamente entre os setores de Serviços (49%), Indústria (30%) e Tecnologia (12%).
Os dados revelam, porém, um paradoxo que merece atenção: embora 84% das empresas já utilizem IA de alguma forma, a maioria segue em estágios iniciais de maturidade, com resultados limitados e investimentos insuficientes.
A IA é prioridade declarada, mas o investimento não acompanha o discurso
O uso de Inteligência Artificial aparece como a iniciativa mais citada para 2026, com 59,5% dos respondentes posicionando-a no topo de suas agendas tecnológicas. A automação de processos vem logo em seguida, com 49,7%, complementada por uso de dados na tomada de decisão (33,7%) e transformação digital nas operações (33,3%). Este conjunto de iniciativas sugere que as empresas brasileiras estão buscando construir uma jornada em dois tempos: primeiro, automatizar tarefas repetitivas para capturar ganhos de eficiência operacional; depois, aplicar inteligência sobre esses processos para gerar valor estratégico.
A realidade orçamentária, entretanto, conta uma história diferente. Segundo a pesquisa, 77% das empresas investem nada ou até 2% de seu orçamento total em IA. Apenas 9% destinam acima de 5%, e 3% tratam a tecnologia como prioridade estratégica com investimentos superiores a 10% do orçamento. Este descompasso entre ambição declarada e alocação de recursos ajuda a explicar por que 61% dos respondentes relatam que a IA gerou apenas resultados pontuais ou nenhum resultado relevante para seus negócios em 2025. Quando uma empresa trata sua prioridade número um com orçamento de experimento, os resultados tendem a ser, naturalmente, experimentais.
O dado mais revelador talvez seja este: apenas 3% das empresas conseguiram transformar a IA em novas receitas e vantagem competitiva efetiva. Este número expõe uma lacuna significativa entre a fase de adoção, que a maioria já atravessou, e a fase de captura de valor, onde pouquíssimas chegaram.
Os limitadores da IA são humanos e organizacionais, não tecnológicos
A pesquisa identifica com clareza os três principais fatores que limitam os resultados da IA nas organizações brasileiras:
Limitador | % de respondentes |
Falta de profissionais qualificados | 43% |
Falta de integração entre áreas e sistemas | 41% |
Preocupações com riscos legais e éticos | 28% |
O padrão que emerge é claro: nenhum dos três maiores bloqueadores é um problema de tecnologia em si. A escassez de talentos com capacitação adequada, a fragmentação organizacional (áreas e sistemas) e a insegurança regulatória são barreiras de natureza humana, cultural e institucional.
Este cenário ganha ainda mais relevância quando comparado com as barreiras gerais ao desempenho dos negócios identificadas pela mesma pesquisa. A dificuldade de execução estratégica lidera com 52% das menções, seguida por cultura resistente à mudança (35%) e lideranças pouco preparadas (35%). O espelhamento entre os limitadores da IA e os obstáculos ao desempenho empresarial não é coincidência: são manifestações do mesmo déficit organizacional. As empresas que não conseguem executar suas estratégias de negócio tampouco conseguirão executar suas estratégias de IA.
O diagnóstico é reforçado pelos fatores críticos de sucesso que os próprios executivos identificam para avançar com o uso estratégico da tecnologia: capacitação técnica da equipe (64%), definição clara de estratégia e prioridades de uso (52%) e qualidade dos dados internos (43%). Os três fatores requerem investimento em pessoas, processos e governança antes de investimento em ferramentas.
A IA ainda está concentrada no front-office
A distribuição do uso de IA por áreas funcionais revela uma concentração significativa nas funções voltadas ao relacionamento com o cliente:
Área funcional | % de respondentes que planejam ampliar o uso de IA |
Atendimento e Experiência do Cliente | 59% |
Marketing e Vendas | 54% |
Inovação, Produtos e P&D | 39% |
Operações e Logística | 39% |
Estratégia de Negócio | 38% |
Finanças e Controladoria | 38% |
RH e Sustentabilidade | 29% |
A liderança de Atendimento ao Cliente, Marketing e Vendas é compreensível: são áreas de impacto direto na receita e no relacionamento com o mercado, com volumes expressivos de dados e processos repetitivos que oferecem superfície natural para automação e inteligência. Contudo, funções de back-office como Operações e Logística, Finanças, Jurídico e RH, onde existe enorme potencial de ganho de eficiência operacional, permanecem significativamente menos exploradas.
Este desequilíbrio sugere que a IA ainda é percebida por muitas organizações mais como ferramenta tática para melhorar a interação com clientes do que como motor de transformação e eficiência. Para empresas que buscam automação de processos e aumento de produtividade, as funções de suporte e operações representam uma fronteira com retorno potencialmente alto e ainda pouco explorada.
Ao mesmo tempo, o uso de agentes autônomos de IA, a fronteira mais avançada da automação inteligente, permanece incipiente. A pesquisa mostra que 40% das empresas não utilizam nem planejam utilizar agentes autônomos, enquanto 43% estão apenas em fase de testes com tarefas simples e repetitivas. Apenas 9% enxergam esses agentes como parte essencial de processos-chave. O potencial de automação que vai além de regras predefinidas e envolve tomada de decisão continua, para a grande maioria das empresas brasileiras, como território inexplorado.
Maturidade organizacional é um pré-requisito para captura de valor com IA
Correlacionar os dados do Panorama 2026 revela um quadro que conecta todos os achados anteriores: o retorno real da IA não depende primariamente da sofisticação tecnológica adotada, mas do nível de maturidade organizacional da empresa que a adota.
Os executivos brasileiros demonstram ter consciência dessa relação. Entre os fatores críticos de sucesso apontados para 2026, o alinhamento entre estratégia e operação lidera com 66%, seguido por capacidade de execução dos projetos (60%), adaptação contínua às novas tendências (55%) e liderança preparada e engajada (52%). A adoção de tecnologia e IA aparece em quinto lugar, com 49%. Os próprios líderes reconhecem, portanto, que a competência de execução precede e condiciona o sucesso tecnológico.
A expectativa de evolução de maturidade para 2026 é ambiciosa. Em 2025, 62% das empresas estavam nos estágios “inicial” ou “emergente” de uso de IA. Para 2026, os executivos projetam que essa concentração caia para 42%, com avanço expressivo para os estágios de integração (de 23% para 26%), avançado (de 10% para 22%) e transformador (de 5% para 10%). Esse salto exigiria que, em um único ano, aproximadamente 20% das empresas migrassem de projetos-piloto para uso contínuo ou escalável. Considerando que 77% investem menos de 2% do orçamento em IA e que 43% reportam escassez de profissionais qualificados, essa ambição pode facilmente virar frustração se não for acompanhada por investimentos proporcionais em capacitação, integração de sistemas e governança de dados.
O Panorama 2026 evidencia que o desafio das empresas brasileiras já não é mais de adoção e que essa barreira foi superada. O desafio atual é de integração estratégica: conectar a IA aos processos e jornadas do negócio, com pessoas preparadas, dados de qualidade e liderança capaz de orquestrar a transformação. Empresas que tratarem a IA como projeto de tecnologia continuarão colhendo resultados de projeto de tecnologia. Aquelas que a integrarem como componente de uma transformação organizacional mais ampla, que inclui liderança, cultura, processos e dados, terão as melhores condições de transformar intenção em vantagem competitiva real.



